O incansável Dom Quixote

O incansável Dom Quixote

O incansável Dom Quixote
Por Miguel Anunciação (BH)*
Montar “Dom Quixote de la Mancha” é sempre um sonho entre os criadores de artes cênicas: além da dispensa de pagar direitos autorais, óbvio facilitador para quem trabalha com recursos sempre tão escassos, esta obra do espanhol Miguel de Cervantes, tida como o grande clássico do gênero “romance de cavalaria”, de status imortal na literatura de todos os tempos, oferece uma infinidade de situações, figuras e paisagens saborosamente cômicas e históricas. Uma ficção inspirad(or)a e vigorosa.   
O caudaloso volume de tudo isso que oferece, no entanto, sempre torna esta obra única, extraordinária, um imenso desafio para quem pretende convertê-la à cena. Razão pela qual tantas vezes já se montou Dom Quixote pelo mundo, em variadas linguagens artísticas (teatro, cinema, história em quadrinhos, literatura, desenhos animados, bonecos, dança, TV, etc) e, na maioria das vezes, tais leituras/traduções cênicas soaram malsucedidas. Pálidas quando confrontadas à obra matriz.
Por isso, é por demais animador que “O Incansável Dom Quixote” surja assim, tão surpreendentemente: mais que um trabalho admirável, arrebatador, é um raro exemplo de esforços bem-sucedidos, ao tomar o mesmo material que tantos outros talentos não lograram obter resultados assim tão louváveis. Além de ser a melhor escalação que o 8º Festival Nacional de Teatro de Juiz de Fora exibiu até aqui, afora os espetáculos convidados.
Produzido em 2013 pela Magnífica Trupe de Variedades, do Rio de Janeiro, absolutamente tudo nele é acerto: o figurino, a adaptação, o texto final, a direção de Reynaldo Dutra, o desempenho de Maksin Oliveira, ex-alunos da Unirio. Até a sobriedade da cenografia e da iluminação, em plena sintonia com o destaque que se pretende deixar à interpretação, ao humor, à perspicácia e à crítica da trama, que se servem do escracho e de liberdades de dramaturgia, sem perder inteligência jamais.
Fotos por: Rodrigo Souza
Surpreende também, talvez sobretudo, como uma criação tão evidentemente qualificada (confessamente influenciada pelo teatro essencial de Júlio Adrião, de “A Descoberta das Américas”, mas ímpar, de modo algum outra mera derivação) até aqui não tenha sido identificada e propagada pelos críticos. Justiça que a temporada que a peça realizará em outubro, no Teatro do Jockey (Rio de Janeiro), venha finalmente fazer acontecer.
O espetáculo foi apresentado dia 4 de setembro, às 21h, no Pró-Música.
* Miguel Anunciação (BH) é jornalista e crítico de espetáculos.
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