Candim: a cabeça pensa onde os pés pisam!

Candim: a cabeça pensa onde os pés pisam!

Candim: a cabeça pensa onde os pés pisam!
Por Anna Esteves (RJ)*
A Cia da Casa Amarela, na esteira dos seus vinte anos de experiência teatral, trouxe ao público infantil do 8º Festival Nacional de Juiz de Fora a universalidade de Candido Portinari com o espetáculo Candim: A cabeça pensa onde os pés pisam! Esse alcance se deu por meio da encenação da particularidade da sua vida cotidiana na cidadezinha de Brodowski, interior de São Paulo.
A pesquisa para o trabalho se direcionou para um compromisso com o “processo de vida real” da vida de Portinari, que eleva o seu modo de produção artística à universalidade, embora esteja vinculado à representação de uma particularidade, em um espaço e um tempo determinados. Ainda que a intenção seja um acerto: a vida é, foi e sempre será a fonte da arte; e a arte em todos os tempos e lugares retroalimenta a vida, faltou-lhe uma dimensão muito contundente, a crítica social.
Trazer à cena essa dimensão política da obra e vida do artista seria importante para o alcance da visão de mundo infantil, que não pode ser subestimada. Dado que são cada vez mais raros os encontros dessa natureza para esse público específico, em que a criação de “não lugares” – onde não se estabelece contato, historicidade ou referência – é a tônica da nossa arquitetura, organização e consequente relação. 
O processo coletivo da cia parte de um roteiro prévio escrito pelos atores que, em seguida, passam a improvisá-lo. Experimenta-se no ensaio o levantamento desse texto-base que, por sua vez, é também modificado pela (re)construção da cena que está em constante abertura para alterações.
Fotos por: David Azevedo
O resultado desse método se revela numa dramaturgia leve como as brincadeiras de criança presentes na peça, tais como soltar pipa, pular amarelinha, etc. A palavra escrita não tem o mesmo peso que a ação dramática, que se destaca em momentos como a representação de Candim no espantalho de sua cidadezinha e o colorido e a magia na noite de festa na roça.
Parece-me que existe uma feliz coincidência entre o processo de formação popular dos atores – “onde os pés pisam” – e a escolha estética da peça (bem como do repertório teatral da cia) – que a “cabeça pensa”, com a formação de Candim e sua produção artística. 
O espetáculo foi apresentado no dia 2 de setembro, às 15h, CCBM.
* Anna Esteves (RJ) é doutora em Artes Cênicas pela UNIRIO e em Artes, Línguas e Espetáculo por Nanterre (Paris X)
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