Coiteiros de Paixões

Coiteiros de Paixões

Coiteiros de Paixões
Por Miguel Anunciação (BH)*
Assim como o cinema nacional recente especulou o quanto as desigualdades econômicas nas grandes cidades gerariam violências, produção apelidada de “filmes-favela”, o nordeste, sua gente, costumes, tradições e maneiras mobilizou realizadores do cinema nacional durante os anos 60/70. Sobretudo os do movimento Cinema Novo. Até este interesse também declinar e os temas nordestinos se estabelecerem mais acentuadamente nas novelas de tv.
Curiosamente, Nelson Rodrigues era pernambucano, mudou para o Rio de Janeiro já embebido pelo imaginário peculiar do nordestino, mas nunca escreveu nada de notável sobre sua região de origem. O mais importante dos nossos dramaturgos não deixou textos teatrais ambientados no nordeste, nem visitados por seus tipos. Mesmo produzindo sua obra enquanto – a primeira metade do século 20 – outros autores (Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Rachel de Queiróz, Ariano Suassuna, etc) produziam literatura essencialmente tingida pela paisagem humana, geográfica e política do nordeste.
Inclusive por isso, nos chama atenção que a Cia de Teatro Cordão Encarnado (RJ) tenha montado uma trama nordestina, e que não se atenha a explorar exoticamente seus personagens e modos, numa comicidade facilitada, como tantas peças, sobretudo de rua, se limitam. Desde o título, “Coiteiros de Paixões” remete ao cangaço, ao período em que bandos organizados impunham temores à população, algo tão assemelhado ao que hoje vemos ocorrer.
Fotos por: Rodrigo Souza
O texto do pernambucano Luiz Felipe Botelho e a direção do baiano Josué Soares atraem e sustentam admiravelmente o interesse do público. A encenação dura uma hora, é bem cuidada e defendida com evidente entrega dos seis atores. Parte do que nos envolve, do que nos contagia, talvez se deva ao equilíbrio entre o que soa conservador e o que nos surpreende, o que os personagens fazem dos seus corpos e do seu sexo. Um equilíbrio, digamos, de distâncias: uma cia carioca tratar em bons termos o universo nordestino; o cangaço ser contado por gente que o apoia; uma sociedade conservadora que convive com diferenças (filhos que vivem na Europa, permissões de ordem sexual); o convívio de brutalidades e sensibilizações; e um espetáculo tão favorável às variações dos desejos. Mas termina por sugerir a solidão como liberdade mais plena.
O espetáculo foi apresentado no dia 2 de setembro, às 21h, no Pró-Música.
 * Miguel Anunciação (BH) é jornalista e crítico de espetáculos.
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